OS MISTÉRIOS DO "KI"
OS MISTÉRIOS DO “KI”
Um Manifesto sobre o Resgate do “Ser” nas Artes Marciais
Por JB Xavier
Praticante de Karatê há 56 anos
NOTA DE ABERTURA DO AUTOR
Este texto está para ser escrito há mais de 40 anos. Esperei pacientemente todo esse tempo para que alguém o escrevesse. Sinceramente, não entendo por que ninguém o fez. Então, como meu horizonte se encurta a cada ano, achei que era hora de redigi-lo. Não pela ótica do saudosismo, ou por crítica pura e simples a um esporte ao qual dediquei minha vida inteira; escrevi para acrescentar cenários possíveis ao futuro dele.
Ainda que quisesse, não posso ‘desver’ o que vi. E o que vi está levando as artes marciais para o perigoso caminho do mercantilismo e do espetáculo puro e simples. O que testemunhei foi o afastamento cada vez mais palpável do caminho do ‘SER’ em direção ao caminho do ‘TER’. Ou seja, as artes marciais estão se distanciando das tradições que lhes deram origem. Se nada mudar, elas já não serão mais as mesmas que eu e os de minha geração praticamos.
PARTE 1
A humanidade pode ser dividida em dois grupos: os que possuem e são possuídos pelo “Ki” e os que nunca o sentiram.
O primeiro grupo é infinitamente menor que o segundo. Ele é formado pelos humanos “universais”, ou seja, aqueles que mantêm seus portais mentais abertos ao infinito — a uma região que pode ser sentida, mas não pode ser descrita. Já o segundo grupo forma a imensa maioria da humanidade. Esse grupo foi crescendo à medida que a sensibilidade humana foi sendo substituída pela tecnologia. Estes costumam ter grande saber sobre assuntos materiais. Seus conhecimentos impressionam e geralmente os transformam em “gurus”, hoje nominados “influenciadores”. Contudo, esses conhecimentos raramente vão além dos aspectos materiais da existência.
Mas a humanidade é composta por seres que são mais que meros semoventes, feitos de matéria e buscando satisfação no “ter”. Ela se compõe de seres universais cuja maioria, infelizmente, não consegue descobrir o significado do “Ser”.
Dentre as muitas maneiras inventadas pela humanidade para acessar o “Ki”, talvez as mais contundentes sejam os esportes e, entre eles, as Artes Marciais. No início, as Artes Marciais não eram o que vemos hoje. Não havia disputa entre atletas — aliás, seus praticantes sequer se consideravam atletas. Havia apenas uma reunião de técnicas desenvolvidas num crescendo de dificuldades que permitia ao praticante ascender das mais básicas às de maior complexidade.
A reunião dessas técnicas foi orientada de maneira a formar um caminho de dificuldades crescentes que levasse o praticante ao domínio total de si. No Japão, cada divisão dessas etapas foi chamada de kata – cuja melhor tradução é “Forma”. Em cada uma dessas formas, introduziu-se a “explosão” do “Ki” no movimento, representando o descarregar das forças cósmicas que vieram se somando durante a execução do exercício.
No início, cada praticante procurava abrir sua mente ao “Ki” para sentir seu fluir no corpo, e o kata era a maneira de fazê-lo se manifestar fisicamente, demonstrando todo o poder que carrega. Alguns conseguiam — e ainda conseguem — isso. São os praticantes do “Ser”. Eles buscam ser parte desse poder monumental, ser o controlador de seus efeitos em si próprios e ter a capacidade de direcioná-lo aos problemas do cotidiano. Estes, como assinalamos, são uma minúscula minoria.
O advento das competições nas Artes Marciais, porém, foi aos poucos desviando os praticantes do “Ser” e instalando neles um profundo abismo niilista. Essa imensa maioria rejeita verdades absolutas, verdades metafísicas e os sistemas morais que sustentam o funcionamento do mundo. Vivem num vazio existencial, sem conseguir ver na vida humana um plano divino ou uma finalidade maior.
As competições contraem a visão do indivíduo sobre si mesmo, ao invés de expandi-la. Esse niilismo leva inexoravelmente à percepção megalômana de si próprio, fazendo-o questionar a validade de qualquer conhecimento definitivo ou que não seja possível de medir fisicamente, como é o caso do “Ki”. A crença de que a vida não tem sentido ou valor inerente, de que não existem o bem e o mal objetivos e de que os valores morais são criações humanas relativas, leva o ser humano justamente à condição que as Artes Marciais foram criadas para evitar.
As competições incentivam cada vez mais o uso da força, quando se sabe que o “Ki” só invade a mente mergulhada na harmonia do silêncio interior.
Lao-Tsé, figura central do taoísmo, escreveu seu livro famoso, o Tao Te Ching, composto por 81 capítulos curtos. No capítulo 33, ele pontuou a diferença entre conhecer os outros e conhecer a si mesmo, vencer os outros e vencer a si mesmo. Eis o que as competições fazem, na realidade: ensinam a vencer os outros, a demonstrar força externa ligada ao domínio físico ou social. A força externa impressiona, mas depende de circunstâncias e adversários.
Pior que tudo, desenvolveu-se nas Artes Marciais a fachada da humildade: “Competir, vencer, mas vencer com humildade. Perder, mas perder com dignidade”. Isso, por si só, justificaria a existência das competições. Mas quem já participou delas conhece o orgulho da vitória e o senso de poder que invade quem vence. Igualmente, já sentiu a frustração de não ter vencido — e, muitas vezes, “frustração” é apenas um eufemismo para “humilhação”. As competições geram duas forças contrárias: vencedores e perdedores. Para cada torneio, um sai ovacionado e o outro, humilhado. Convenhamos, este não é um bom método para construir pessoas verdadeiramente integradas ao “Ser”. Nem para o vencedor, nem para o perdedor.
Apesar dos discursos, a verdade é cruel: não existe humildade entre a imensa maioria dos praticantes de Artes Marciais da atualidade. O próprio sistema de avaliações vigentes, que atribui faixas de cores diferentes aos respectivos avanços técnicos, desvirtua os valores que elas pregam. No fim, o que vale é mostrar a faixa conquistada – especialmente a faixa preta – como um símbolo de aptidão técnica. O praticante ostenta sua faixa dando a máxima importância ao termo “Marcial” e relegando o termo “Arte” ao esquecimento. Alega-se que as diversas cores de faixas são uma maneira de incentivar os iniciantes para que conheçam os níveis técnicos que já conquistaram.
Se — ou quando — é assim, ótimo. Mas quase nunca é essa a razão. Caso contrário, por que as diferenciações continuam a existir após a faixa preta, quando o praticante atinge a maturidade da prática e já não precisa mais de incentivo para continuar? É compreensível, do ponto de vista do “Ter”, atribuir títulos honoríficos ao atingimento de novos níveis de conhecimento técnico. Mas esses títulos, antes ou depois da faixa preta, são completamente inúteis para o acesso ao “Ki”. Trata-se de exibir ao público os níveis de excelência marcial conquistados; as graduações, contudo, não exibem o nível artístico do praticante.
"Ki” não se encaixa nem mesmo no conceito exato de “Arte”, se considerarmos a definição estrita dessa palavra. Convencionou-se dizer que “Arte é uma manifestação humana ligada à criatividade, à expressão de emoções e à comunicação de ideias através dos sentidos”. O “Ki” não se enquadra nesta definição, uma vez que ele transcende os próprios sentidos. Isso explica por que o número de adeptos do “Ter” aumenta exponencialmente, enquanto o dos adeptos do “Ser” cresce em passos aritméticos.
Mesmo depois da faixa preta, que, em tese, já demonstra que o praticante atingiu o nível de excelência técnica, ele precisa continuar mostrando aos outros que foi além. Então, começam a ser atribuídos “graus” ou “Dans” para que todos saibam o quão alto ele está na escala de excelência. Finalmente, aos considerados “mais adiantados”, são ainda acrescentados à faixa preta vários símbolos ou destaques que atestam o caráter niilista deles. São pequenas faixas vermelhas, ou pontas alternando vermelho e branco, de maneira a criar castas entre os praticantes, mesmo após a conquista da faixa preta.
As faixas coloridas alimentam o “Ter”; o kata silencioso revela o “Ser”.
Na prática do kata, é possível perceber se vencemos ou perdemos para nós próprios. Sabemos que vencemos a nós mesmos quando sentimos o poder interior fluindo e conseguimos o autodomínio sobre ele. É isso que nos faz sábios e grandes. Quando praticamos kata a sós, em silêncio, distantes de competições, não dependemos de testemunhas nos avaliando — e isto nos leva à plena e verdadeira liberdade.
A prática honesta do kata nos guia à grandeza interior através da superação de impulsos, do afastamento das vaidades e do medo dos julgamentos. O kata nos permite vencer a nós próprios, e isso é infinitamente mais difícil e mais valioso do que vencer disputas externas.
Quando vejo disputas de kata por equipes, percebo ainda mais a inutilidade delas, porque se trata de mera coreografia. Se numa demonstração individual de kata já é difícil abrir as comportas do “Ki”, imagine em uma coreografia tripla, onde cada competidor deve abdicar de sua própria energia para ficar atento à sincronia dos outros dois.
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PARTE 2
Lao-Tsé bem citava o poder interior da água: ela vence pela constância, e nunca pela violência. Ele concentrou seus ensinamentos em uma frase que atravessa séculos e merece ser gravada em mármore:
“Quem vence os outros é forte. Quem vence a si próprio é poderoso.”
Todos os katas iniciam por um movimento defensivo, mostrando, desde logo, que as Artes Marciais não são um sistema de ataque, mas sim de defesa. Sendo assim, fica claro que todos os que as praticam com o intuito de atacar estão equivocados.
Em termos práticos, entretanto, defender-se é muito mais difícil do que atacar. Isto porque um movimento de defesa só pode nascer após ter início o movimento de ataque do adversário, mas precisa estar completo antes que o ataque se complete. Assim, a defesa precisa ser muitíssimo mais rápida que o ataque (abrindo-se exceção, claro, às técnicas avançadas de sen-no-sen).
Essa velocidade excepcional de defesa só pode ser alcançada diante de algumas condições especiais às quais sujeitamos nossa mente e nosso corpo — nessa ordem; caso contrário, a reação iniciará atrasada e será superada fatalmente pela investida adversária.
Ocorre que essas “condições especiais” são justamente a parte mais difícil a ser alcançada na prática das artes marciais. Eu diria mesmo que são raros os praticantes que as alcançam, não importando o tempo de treino que carreguem nem a graduação que tenham atingido. Essas condições eram sutis e difíceis de serem avaliadas externamente, de maneira que são poucos os que as dominam, e menos ainda os que conseguem interiorizá-las.
Tudo o que existe no Universo é composto, mantido ou gerado pelo “Ki”. Algumas correntes filosóficas orientais ensinam, inclusive, que a matéria é somente uma projeção limitada dele. O fato é que a energia “Ki” não pode ser explicada ou demonstrada em palavras. Aliás, sequer deveríamos nomeá-la como “força”, pois este termo demandaria pensarmos em algo que gera destruição, quando, na verdade, ela gera construção e vida. Melhor seria chamá-la de “Energia Vital”.
Toda a eficácia das artes marciais está fundamentada no domínio e no uso correto dessa energia — o “Ki” —, ou seja, no uso consciente de sua liberação. Também não é possível determinar o momento exato em que o praticante descobre a sua existência. Podemos apenas descrever que sua descoberta implica um estado emocional alterado, um êxtase absolutamente indescritível para quem o vivencia. Essa revelação pode acontecer em qualquer momento da vida e em qualquer lugar. Basta que estejamos atentos.
Não é necessário ser praticante de Artes Marciais para que nos ocorram insights sobre o “Ki”. Aliás, a bem da verdade, não há necessidade alguma da prática marcial para acessá-lo. Qualquer pessoa que consiga libertar sua mente do trivial cotidiano e lançá-la ao infinito — seja através da quietude do silêncio ou da prática da meditação — estará estabelecendo contato com o Universo que, em última instância, é o próprio “Ki”.
Quando falo em “Quietude do Silêncio”, não me refiro à ausência de ruído físico. Pode acontecer de estarmos em um parque ou em um shopping movimentado e, ainda assim, permanecermos com a mente silenciosa. Muitas vezes o “Ki” surge motivado pelo enfrentamento de uma situação qualquer, seja uma discussão banal ou um problema que há muito nos torturava e cuja solução de repente se faz “magicamente”. Se mantivermos a mente em silêncio, repentinamente surge essa luz — essa energia ao mesmo tempo pacificadora e incentivadora.
Após experimentar o “Ki” nos envolvendo, nunca mais seremos os mesmos seres humanos que éramos antes. É como a clássica imagem do gênio aprisionado na garrafa: podemos tropeçar nela em qualquer lugar e a qualquer momento da vida, mas, uma vez que o gênio é posto em liberdade, ele jamais voltará para dentro dela.
A prática do “silêncio mental” mantém aberta essa porta ao universo e nos permite sentirmo-nos senhores do processo que antes nos incomodava, apaziguando o interior e tornando-nos vencedores sobre nós mesmos. Então, não importa como sintamos o “Ki”; Importa é que ele nos torna maiores do que nós próprios e, por consequência, nos leva à vitória sobre nossa própria natureza.
Mas uma coisa é descobrir o “Ki”, outra é saber direcioná-lo. Já dissemos que a qualquer pessoa é possível interagir com ele. Primeiro a mente o sente e, para isso, despe-se do ruído externo, mergulhando em um silêncio total que permite a percepção dessa energia circundante. Eis por que o kata possui momentos de introspecção: eles são justamente o instante de conexão com o “Ki”, que geralmente é exteriorizado pelo “Kiai”.
Nas artes marciais, o Kiai não é apenas um grito para assustar o oponente. Ele é a manifestação audível e física do Ki concentrado no "Hara" — o centro de gravidade e energia do corpo. Quando o praticante projeta o Kiai, ele está convertendo sua energia interna em uma força de impacto e presença. É o som gutural vindo das entranhas, causado pela energia “Ki” abrindo caminho através do mundo material.
Uma vez estabelecida a conexão, não é mais possível desfazê-la. Da conexão à explosão de energia são átimos de tempo, impossíveis de serem medidos pelos padrões humanos. Não podemos controlar o “Ki”. O único controle que temos sobre ele é, talvez, o poder de conectar-nos ou não a ele.
Cada praticante tem sua própria maneira de reconhecer, entender e utilizar essa energia. Pessoalmente, sempre o imagino — limitadamente, diga-se de passagem — como uma enorme fonte de luz pairando sobre mim. Sempre que necessário, abro minhas janelas internas e deixo a luz fluir.
Se alguém, algum dia, percebeu a água, esse alguém certamente não foi um peixe. O mesmo se dá conosco e nossa percepção do “Ki”. Quando digo que minha descrição é limitada, é porque o “Ki” nunca está contido; ao contrário, nós é que estamos contidos nele. Ele nos rodeia de tal forma que estamos plenos dele. E porque ele está dentro e fora de nós, tudo fica cosmicamente equilibrado, tal como um peixe na água, que não sente a pressão das profundezas.
É importante saber também que não é possível estabelecer conexão com o “Ki” através da força bruta. A mente precisa estar plácida para que o contato se estabeleça. Somente através da placidez mental abrir-se-á o caminho por onde ele fluirá e transbordará sua energia.
Também não é necessário um corpo treinado e forte para a conexão. O “Ki” pode ser evocado para outras finalidades que não exijam suporte físico, como o domínio sobre a própria vontade, a ira e os impulsos vários, típicos da condição humana. O motivo pelo qual tão poucas pessoas conseguem acessar e utilizar essa força na vida cotidiana pode ser explicado justamente pela perda de conexão com os conceitos tradicionais, que se manifesta em três grandes dificuldades cotidianas:
- A Dissipação do Ki no Cotidiano Moderno: No dia a dia, a maioria das pessoas vive em um estado de dispersão mental e respiração superficial. O Ki exige centralidade (Zanshin — o estado de alerta focado) e alinhamento corporal. Sem o treino da presença e da respiração abdominal profunda, a energia vital se dissipa em ansiedade, estresse e pensamentos fragmentados, tornando-se inacessível para o uso prático.
- A Falta de Domínio do "Shi" — (A Força das Circunstâncias): Nas artes marciais, o Kiai é emitido no momento exato em que a sua energia encontra a vulnerabilidade do oponente. Na vida cotidiana, acessar o Ki significa ter a sensibilidade de ler o Shi (a tendência e o fluxo do momento). Quem não treina essa percepção tenta "forçar" as situações usando a força bruta psicológica e o desgaste emocional. Quem acessa o Ki consegue aplicar a energia certa, no momento certo, mesmo que este momento seja uma reunião de negócios. É um "Kiai silencioso" que podemos utilizar em uma reunião de negócios, em uma decisão difícil ou em um momento de crise, levando-nos a favor do fluxo da situação, e não contra ele.
- O "Kiai Interno" como Intenção Pura ("Yi"): Poucos usam o Ki no cotidiano porque associam essa energia a algo místico ou puramente físico, como desferir um golpe. Na vida real, o Kiai se transforma em Intenção Pura (Yi). É o atributo daquela pessoa que entra em um ambiente e, sem dizer uma única palavra, altera a atmosfera ao redor devido à sua forte presença e centralidade. É a capacidade de focar 100% da energia mental em uma única tarefa, sem hesitação (Fudoshin — a mente imperturbável).
Porém, se conectarmos o "Ki" para alguma atividade física, como é o caso das artes marciais, então quanto mais treinado for o corpo, mais completa e eficaz será a sua manifestação. Um praticante de artes marciais que tenha o corpo despreparado, mas que possua a percepção aguda do “Ki”, poderá sofrer várias injúrias físicas causadas pela própria energia avassaladora que dele fluirá.
Chamo aqui a atenção para as lutas tão em moda do M.M.A. (Mixed Martial Arts). Seus praticantes, em sua maioria atletas de elite e mestres em seus respectivos estilos tradicionais, disputam durante vários minutos uma luta que, pela definição tradicional de Artes Marciais, deveria ser decidida em um único golpe (Ikken Hisatsu). Essa expressão japonesa pode ser traduzida por “um golpe, morte certa” ou “um golpe, uma vitória definitiva”
No entanto, o que se vê, especialmente no ground and pound, são quantidades avassaladoras de golpes que nem sempre conseguem vencer o adversário.
Na realidade, o M.M.A. nada mais é do que as antigas rivalidades entre estilos e o velho desejo de supremacia marcial, mas agora despidos do seu verniz filosófico e de sua máscara mística. No passado, escolas se enfrentavam para provar superioridade sob o pretexto da honra; hoje, o octógono apenas comercializou e institucionalizou essa barbárie do ego. É o exemplo típico de praticantes que ainda não descobriram a existência do “Ki”, talvez pela demasiada preocupação com o preparo puramente corporal, físico e técnico.
E ainda bem que é assim, caso contrário teríamos muitas mortes neste esporte. Penso, inclusive, que qualquer um desses lutadores, considerando que sejam pessoas honestas consigo mesmas, pararia de competir no dia em que descobrisse a avassaladora energia do “Ki”. Por esse esporte se vê que a preocupação obsessiva com o corpo pode fazer o praticante nunca perceber a existência da própria energia vital, e muito menos o seu uso e controle.
As artes marciais de um modo geral — e o Karatê, do qual posso falar com mais propriedade — são sistemas pensados para não lutar! Pode parecer estranha essa afirmação, mas, na verdade, essas artes são sistemas de disciplina mental e corporal que podem, eventualmente, ser utilizados como defesa. Elas foram concebidas para, caso seja estritamente necessário, serem utilizadas em defesa própria, no menor tempo possível e causando o mínimo de injúria ao adversário. Depois, o poder fornecido pelas técnicas foram substituindo a busca pelo "Ki".
Então, diante de uma ameaça, cabe ao verdadeiro praticante decidir simplesmente afastar-se da disputa, sem se importar se vão considerá-lo covarde ou não.
O praticante do “Ser” só deve explicações a si mesmo.