SOLIDÃO JUVENIL – MINHA PARTE NA FORMAÇÃO DELA
“Quando elogiei meu filho para um amigo, dizendo-lhe quão comportado ele era, ele me perguntou: ‘Comportado, ou enquadrado? ’” Senti um soco no estômago ao ouvir isso. Eu esperava elogios e o cara veio com crítica! Que raio de amigo é esse? Depois, pensando melhor, percebi que amigos que nos dizem verdades são raros. E a pergunta dele me fez pensar — e muito.
Provavelmente, leitor, com você acontece o mesmo. Um filho quieto, submisso, concordante não significa necessariamente bom comportamento. Ele pode estar quieto porque já concluiu que não o ouvimos, embora às vezes finjamos escutá-lo. É duro ser solitário e se sentir lutando uma batalha sem companheiros, justamente por parte de quem esperamos ajuda. E por não ouvir meus filhos — digo ouvir realmente — eu os estava condenando à solidão, que provavelmente seguiria com eles pela vida inteira.
Se eu tiver o azar de que, quando ele casar, encontre uma esposa parceira e sogros que o “adotem”, então “perdi” meu filho. Se esta for a sua situação, leitor, continue lendo.
A pergunta do meu amigo me levou a buscar respostas que talvez sirvam a você também. A primeira foi uma constatação triste e cruel: a solidão não começa na adolescência. Ela é semeada na infância, quando os “abandonamos” aos cuidados de domésticas, avós, escolas e tudo o mais que julgamos poder nos substituir.
Esse processo começou a se intensificar no final da década de 60, quando mudanças sociais e econômicas levaram muitas famílias a delegar o cuidado dos filhos a terceiros. O que parecia progresso — mais renda, mais oportunidades — trouxe também um efeito colateral: a ausência dos pais no cotidiano emocional das crianças.
Ao final dos 80 isso já estava consolidado: A tecnologia havia tirado de casa as mães, que agora trabalhavam também como mantenedoras do lar. E não parou mais nas décadas seguintes, nem mesmo quando a internet rápida permitiu o trabalho “home-office”, uma previsão feita por Alvin Tofler em seu livro A Terceira Onda, nos anos 80.
O trágico dessa história é que nós, pais e mães, nunca achamos que estamos sendo relapsos com nossos filhos. Ao contrário. Sempre achamos que estamos fazendo o melhor por eles. Mas - é aqui que reside a ironia – o melhor, segundo nosso ponto de vista. Vê-los bem nutridos, saudáveis, bem vestidos, bem-educados e desfrutando de tudo o que nossas condições financeiras pode lhes dar parece ser sinais de que somos bons pais.
Mas, sob o ponto de vista deles, isso quase nunca é notado, porque, na verdade ao providenciar essas coisas não estamos fazendo mais que nossa obrigação. Que mérito pode haver em darmos o melhor para nossos filhos? Nenhum! É para isso que os trouxemos ao mundo. Não dar o melhor, se temos condições, sim, é demérito!
Para piorar estamos sempre confundindo “melhor” com “necessário”. O melhor nem sempre é o necessário, e vice-versa!
E, para piorar ainda mais, ao darmos o melhor – materialmente falando – consideramos estar fazendo o necessário para tornar nossos filhos felizes.
Mas há uma coisa que é absolutamente necessária, e que vem antes das coisas materiais. A Atenção!
Aqui quase todos os pais – inclusive eu – pisamos no tomate. Discordem de mim, de maneira sincera, se puderem. Nunca agendei, e nunca conheci alguém que tenha em sua agenda um horário reservado aos filhos. Falo de horário marcado, mesmo - e sagrado - assim como marcamos o dentista, o cabelereiro, a reunião com o chefe, clientes, fornecedores, e confraternizações entre amigos.
Para sair a passear com o cachorro, sim. Diariamente, Religiosamente. Mas passear com os filhos, é mais raro. Claro, há exceções, para confirmar a regra. Espero que você leitor, seja uma delas.
Mas, todos afirmamos que falamos com nossos filhos. Por dez minutos quando chegamos do trabalho. Depois vamos assistir ao jornal, lavar os pratos, passar a roupa ou ler um livro. E o filho, que tinha tanto a contar sobre um dia de aventuras – porque todos os dias de uma criança ou jovem é uma aventura – fica quieto num canto assistindo TV ou rolando telas no celular. As aventuras estão engasgadas em sua garganta sem ter para quem contar.
E nós, pais, continuamos achando que estamos fazendo o melhor. Afinal, ou levamos os filhos à escola na segurança de nossos carros ou os colocamos em ônibus escolares, ou, para quem não tem condições, vai caminhando mesmo. E já no caminho, no ônibus ou ao sair do carro, eles vão sofrendo bulling sem que percebamos nada.
Meu amigo me forçou a fazer uma pergunta fundamental para mim mesmo:
Quem educa, de fato, nossos filhos?
Aqui desejo lembrar a todos que é preferível a resposta errada para a pergunta certa, que a resposta certa para a pergunta errada.
Muitos de nós respondem a essa pergunta de maneira automática: É a escola. Amigo, a escola ensina conteúdos, ou seja, as ferramentas que a criança/jovem vai utilizar na vida. Ela não tem – e nunca terá – ferramentas para educar. Como educar pessoas vindas de diferentes contextos familiares, com diferentes históricos de vida?
Aqui cito uma frase que ouvi certa vez de um professor durante uma reunião de pais e mestres. Ele respondeu à crítica de uma mãe que reclamava de que a escola não se importava com seu filho. Disse ele: “filho é igual peido. Você só aguenta o seu”!
Achei grosseria da parte dele, mas hoje, revendo a questão, não consigo imaginar uma resposta mais completa e exata à crítica daquela mãe. O que ele quis dizer, na verdade foi: eu não preciso me importar com seu filho. Eu só preciso passar informações a ele. O resto é com vocês, pais! Bingo!
Nenhum mestre pode oferecer atenção aos silêncios. O Estado pode ensinar a ler, mas não pode ensinar a ser amado. O silêncio de quem sofre bullying não é quebrado por uma cartilha, mas por um olhar atento. Essa é a verdade que incomoda: não há política pública capaz de substituir o gesto genuíno de afeto.
Depois da catarse provocada pela pergunta do meu amigo, é que eu penso assim. Mas, à época eu fiquei solidário à senhora que reclamou da escola.
Vista por um momento a pele de uma criança ou jovem que se sente invisível dentro do próprio lar. Isso, claro, se você não tiver sido uma delas. Quando criança, você fez uma mega conquista: Aprendeu a somar na aula de Aritmética. Quer contar em casa, mas ninguém pára para ouvir. Quando jovem, na aula de Física o professor trouxe um problema real: Uma pessoa morreu na calçada após ter saltado do 10º andar. Ele estava a dois metros do prédio. Pergunta: Ele pulou ou foi empurrado? E o jovem estava eufórico porque resolveu o problema aplicando a princípio de física MRUA – Movimento Retilíneo Uniformemente Acelerado. Ele contou a todos durante o jantar, mas ninguém – ninguém! – parou por um instante de comer. Ninguém lhe deu atenção.
Então ele foi rodar telas no celular, procurando uma comunidade que o ouvisse. E tome críticas dos pais por ele estar tempo demais nas redes sociais.
É isso que nós os pais fazemos a maior parte do tempo: cobramos resultados, mas não prestamos atenção a eles.
Uma criança que cresce sem saber quem lhe dá direção, cresce órfã de bússola, mesmo dentro de casa.
Depois do soco no estômago dado pelo meu amigo, comecei a notar os silêncios dos meus filhos. Começou a ficar claro as “síndromes do domingo” quando eles começavam a se queixar de algo para não irem à escola na segunda feira. Claro, eu achava ‘malandragem’ deles, e aí vinha aquela conversa fiada que nenhuma criança ou jovem aguenta: “no meu tempo...”
Isso os afastava ainda mais. E o tragicômico é que achávamos que estávamos dando tudo de nós pelo bem-estar deles. Afinal saíamos cedo para o trabalho, para ganhar os recursos necessários à manutenção deles. O ônibus escolar era bom, o colégio não era ruim, saíamos de vez em quando para passeios etc., mas, o principal não fazíamos: ouvi-los. Simplesmente prestar atenção a eles. Simplesmente quando estivéssemos com eles, que estivéssemos inteiros, completos, não olhando para o relógio, de olho no próximo compromisso, seja futebol, cabelereiro etc.
Quantos pais se orgulham dos filhos que humilham colegas? O valentão é visto como forte, como líder. O que se celebra é a crueldade. A vítima não precisa de consolo; precisa ver que a sociedade não tolera abusos. Uma política de tolerância zero não protege apenas as vítimas, mas obriga os pais dos agressores a rever o que chamam de “virtude”. Se o filho fosse expulso do colégio por prática de bulling, os pais começariam a educa-lo de fato.
E o tempo passando. E nós achando que estamos criando uma criança ou jovem comportado, obediente, quando na verdade estamos colocando lenha na fogueira de uma caldeira sem válvula de escape.
Muitos de nós, pais, agimos assim de propósito, para deixarmos a criança desenvolver seu próprio IVP – Índice de Viração Própria. Se tivermos sorte, teremos criado um ser humano que chegou à idade adulta administrando seus medos e suas dúvidas com recursos próprios, ouvindo sua própria lógica e tentando responder positivamente a ela. Se tivermos azar e nosso filho encontrar pelo caminho alguém que o ouça, nós o perderemos para esse alguém. Se esse alguém for pessoa decente, nosso azar diminui. “Apenas” perdemos a liderança sobre o filho. Ao final ainda teremos um filho que nos aceita, mesmo que apenas nos tolere. Mas se for um mau caráter, nosso azar aumenta, porque nada é tão ruim que não possa piorar.
Mas a maioria de nós, pais, cria os filhos mantendo a consciência tranquila de que estamos fazendo o melhor, e que a atenção que damos a eles é suficiente. Muitos de nós fazemos cursos de oratória, mas deveríamos fazer cursos de “escutatória”. Seria muito mais útil.
Não há como moldar o tecido social às pessoas, porque elas são o tecido social. O que se pode é preparar a criança para enfrentar o mundo como ele é: hostil, competitivo, muitas vezes injusto. A ausência de preparo gera adultos frágeis, incapazes de lidar com rejeição ou conflito. O preço da solidão é pago em silêncio, mas a fatura é coletiva.
A conclusão deste artigo é óbvia. Os pais reservam tempo para clientes, chefias, médicos e reuniões. Mas quantos reservam tempo para os filhos?
O antídoto contra a solidão juvenil não é uma rede comunitária, nem uma política pública. É a presença familiar. É o “horário para os filhos” na agenda, tão importante quanto qualquer compromisso profissional.
A solidão juvenil não é falha dos jovens, mas da ausência dos pais. O preço é pago em silêncio, mas o custo recai sobre todos nós. Uma sociedade que terceiriza o afeto, entrega ao futuro não cidadãos plenos, mas adultos solitários e inseguros.
Olhe ao redor, amigo. Exemplos estão por toda a parte.
Jovem ou criança quieta é gelo fino. Cuidado! Ele quebra quando você mesmo espera.
Não tem milagre. É só seguir o que disse Clint Eastwood numa entrevista enquanto era prefeito de uma pequena cidade da Califórnia:
“A melhor maneira de viver numa sociedade boa é entregar filhos bons à sociedade.”