JB Xavier

Uma viagem ao mundo mágico das artes!  A journey into the magical world of  the arts!

Textos

O RETORNO-Homenagem a Mickey Rourke
O RETORNO
J.B.Xavier
Homenagem a Mickey Rourke,
pelo talento que ele não deixou morrer
e por seu retorno triunfal às telas.

Meyck Rekrue parou seu aquecimento pesado e sentou-se sobre a mesa de massagem para ler o bilhete que lhe entregaram.  
“Tenho um personagem para você que é a sua cara! Se deseja voltar em grande estilo, essa é a sua grande chance! Me telefone com urgência.”
Assinando o bilhete estava o nome de ninguém menos que “Nerrad  Faronosky” o aclamado diretor de cinema.
Ele amassou o pedaço de papel e jogou-o contra a parede, olhando-o com desprezo.  Era apenas mais uma tentativa de reconduzi-lo ao mundo de onde viera, e ele não sentia nenhuma vontade de retornar a esse mundo.
Levantando-se da mesa fria de alumínio, Meyck Rekrue enxugou o suor do rosto com uma toalha surrada e aproximou-se da parede espelhada da sala de aquecimento, onde aguardava o momento de ser chamado ao ringue.
Os aplausos e a histeria da platéia, urrando em homenagem ao seu desafiante, que acabara de subir ao quadrilátero começaram a soar irritantemente em seus ouvidos.
Nunca esse ruído o havia incomodado, ao contrário, costumava lhe servir de estímulo, instigando sua sede de destruição. Isto porque Meyck Rekrue não lutava para vencer, lutava para destruir.  
Ninguém, além dele próprio, sabia de onde vinha tanto ódio, mas seus adversários podiam senti-lo em seu olhar logo que se encaravam no ringue, antes do início dos combates, e isso os derrotava antes mesmo de a luta começar.  
Geralmente os aplausos eram sua música preferida, o rock metal que o incitava a derrotar fragorosamente seus adversários, a droga que lhe servia de estímulo. No entanto agora, esses aplausos o estavam perturbando. Por que? perguntou a si mesmo.  
Apoiando as mãos já calçadas com as luvas vermelhas na barra horizontal que havia diante do espelho, ele olhou para sua figura refletida de corpo inteiro, e por instantes, uma voz, vinda do seu mais remoto passado, ricocheteou em seus ouvidos.
“Garoto idiota!  Por que diabos fui assumir sua criação, seu desgraçado.”
Em seguida misturaram-se em sua mente o cheiro de maresia que inundava Miami. Nova York, onde nascera e vivera até os seis anos de idade, também cheirava a mar, mas era um cheiro agradável, não a mistura nojenta de gasolina com maresia que era obrigado a respirar naquela miserável cidade. De todo o coração ele odiava Miami. Odiava mais ainda o padrasto que o aterrorizava com toda sorte de violências verbais, e às vezes físicas, a ele e ao irmão.
Um dia, pensou, ele deixaria aquela cidade e aquela família que o obrigava a uma vida absolutamente cruel.  Mas o que fazer em seus doze anos de idade? Esperar, esperar e esperar até o dia em que pudesse dirigir seu próprio destino.
Mais tarde ele aprenderia que dirigir o próprio destino não é coisa para pilotos imaturos, e pagaria caro por não ter prestado atenção a isso.  
O espelho estava ali, jogando-lhe na cara o fantoche em que se transformara.
Olhando para as cicatrizes no rosto, Meyck Rekrue sorriu um riso tímido, torto, desenhado por lábios que os cirurgiões plásticos de terceira categoria não haviam conseguido endireitar.
Quem estava ali, à sua frente, encarando-o com uma expressão inexpugnável, cujo único resquício de vida vinha do brilho intenso dos olhos? Rekrue ficou encarando esse estranho brilho, que mais pareciam chispas de uma fogueira que se recusava a se extinguir.  
Ainda podia ouvir o alarido ensurdecedor da platéia sedenta de sangue, mas aos poucos também esse ruído foi se extinguindo, enquanto ele mergulhava mais e mais na profundeza de seu próprio olhar, e através dessa porta aberta – a única que o ligava ao mundo exterior – ele foi aos poucos mergulhando na essência de seu próprio ser.
Em rápida sequência, antigas imagens foram se formando em sua mente, a princípio num caleidoscópio confuso, e depois num desfile de velocidade alucinante, impossível de ser descrita. E ele reviu seus medos, vacilações, sonhos, mulheres, e dinheiro, muito dinheiro.
Apesar de todo o sucesso, nunca havia sido feliz. Longe disso. Demônios poderosos habitavam sua alma. Trazia da infância demasiados esqueletos escondidos nos armários para que pudesse aspirar à felicidade.
Seu olhar passeou pelo rosto deformado, detendo-se no nariz – reconstruído sem muito cuidado nada menos que seis vezes. Depois passeou por suas bochechas maceradas, abatidas e macilentas, e viu no conjunto sem harmonia de sua face semi-destruída - outrora um ícone de beleza masculina fotografado pela mídia mundial - uma angústia difícil de ser definida.
Que angústia era essa?  Não fora uma angústia assim, nascida de uma infância mal resolvida, que o trouxera aos ringues? Não foram as dúvidas sobre a própria capacidade de auto-determinação que o tornaram um jovem inseguro, mesmo aparentando o valentão que sempre fora?  
Através de um monitor colocado a um canto da sala, Meyck Rekrue viu seu adversário se aquecendo no ringue, à sua espera.  Nos closes era possível ver o medo estampado no rosto dele. Ao ver quão assustado estava seu desafiante, não obstante à cara de mau que fazia, ele sorriu novamente seu riso retorcido e balançou a cabeça.
Certamente seu adversário sabia que ambos tinham motivações diferentes para lutar. Aquele jovem no vídeo perseguia a fama e a fortuna, enquanto Meyck Rekrue havia abandonado justamente essas duas coisas, para procurar, e se possível destruir, os demônios que o assombravam.
Era assim que ele entrava num ringue: Vendo em seus adversários seu próprio reflexo tortuoso, imoral, degenerado e perigoso, que precisava ser aniquilado. E era isso que ele fazia com seus desafiantes: aniquilava-os, porque aniquilá-los significava aniquilar também um pouco do seu lado negro. Nesta noite não seria diferente.  
Como prometera a si mesmo em sua infância, ele se tornara alguém. Não apenas “alguém”, mas um dos nomes mais citados pela imprensa mundial, um dos homens mais cobiçados pelas mulheres do planeta.
Diferentemente de seus pares do boxe, essa fama e fortuna não foram conseguidos através dos punhos, mas por algo que agora parecia distante e irreal: o cinema.  Sim, mal entrado nos trinta anos, ele se transformara numa máquina de fazer dinheiro na “Meca” do cinema americano, e seu talento era comparado, há época, a Marlon Brando, e pela idade semelhante, a James Dean.
Isso era muito mais do que jamais sonhara na vida, Muito mais longe do que seus mais loucos devaneios haviam ousado chegar.  
Contracenara com os maiores atores da época, e sua fama atingiu seu ponto mais alto ao filmar Semanas de Amor, com ninguém menos que  Kimbass Singer, a fulgurante loira, que se transformou numa das mais bem pagas atrizes de seu país.
Ao pensar nela, Meyck Rekrue balançou a cabeça novamente. Estava ali uma mulher que ele admirava profundamente.  Como ele, também ela fizera uma difícil escolha, recusando-se, após a assinatura de um contrato, a atuar num papel que, ao ler detidamente o roteiro, viu que não somaria nada em seu crescimento como artista, ao contrário, o prejudicaria. A multa, de vinte milhões de dólares, a arruinou financeiramente, e ela precisou começar do início, mas continuou íntegra, como atriz e como pessoa.  
Ele considerou que se houvesse um ringue de uma luta que se chamasse “Princípios de vida” ela certamente colocaria na lona seus adversários, como o fez com os idiotas que a multaram.  Eles saíram com seus milhões, mas não levaram sua alma. 1
A estonteante Kimbass Singer – pensou ele - E pensar que ele a tivera nos braços, num dos mais monumentais filmes já produzidos.  O que pensaria ela - que refizera sua carreira artística e estava deslumbrante em sua maturidade feminina - se o visse agora, um arremedo do jovem que viveu com ela uma história de amor tão intensa?
Seus olhos voltaram a passear pelo rosto amortecido pela pomada com xilocaína. Impossível dizer o que ela pensaria. Provavelmente se assustaria e sentiria repulsa. Ou talvez não! Quem poderia saber? Tampouco isso lhe importava.  
O que importava realmente é que tanto ele quanto ela, fizeram o que fizeram em defesa de um princípio de vida: A honestidade para com seus próprios corações na busca de si próprios.  
Esse era o motivo pelo qual ele estava agora ali, à espera de entrar no ringue: A busca de si mesmo.
Mas havia uma diferença crucial: Diferentemente de Kimba Singer, ele não tinha certezas sobre quem realmente era. Sua certeza era apenas uma: Procuraria incansavelmente, até se encontrar, ainda que para isso tivesse que destruir esse invólucro deformado de sua alma que o espelho refletia.
Ele derrubaria todos os adversários que lhe cruzassem o caminho, mas os demônios que o assombravam não haveriam de levar sua alma. Ela lhe pertencia, e ele era livre para fazer dela o que bem entendesse, inclusive destruí-la.
O alarido da multidão chamando por seu nome era agora apenas um ruído de fundo, não mais que um chiado a perturbar seus pensamentos.
Apoiado sobre a barra, ele viu seu corpo palpitante, suado pelo aquecimento, preparado para outro combate. Voltando a atenção novamente para o monitor, viu também o olhar sem foco de seu desafiante. Num instante ele projetou o futuro daquele jovem: Seria derrotado hoje, e se não tivesse suficiente confiança em si mesmo, concluiria que não era invencível, e provavelmente seguiria para outros combates, já como derrotado.  Um fim melancólico, mas previsível, quando a motivação é apenas fama e fortuna.
Meyck Rekrue concluiu que aquele jovem desafiante não tinha futuro, e se dependesse de seus punhos, esse futuro terminaria nesta noite.
Ao pensar nisso, desviou o olhar do monitor e sua cabeça pendeu para a frente,  onde ficou a observar suas reluzentes botas de combate pisando sobre o bilhete amassado, enquanto tentava justificar para si mesmo que havia sentido em colocar um fim ao sonho daquele quase menino que pensava poder vencê-lo.
Mas não havia. Nunca tinha pensado nisso, e essa preocupação também era novidade para ele. Nunca lhe ocorrera que ao matar seus demônios interiores, ele estava também a destruir sonhos. Nunca lhe viera ao pensamento que nenhuma vitória verdadeira pode se apoiar sobre a humilhação alheia. A própria vitória, pode sim, se apoiar sobre as próprias derrotas, isso ele sabia e praticava, mas ao olhar para esse jovem suado no monitor, uma sensação de impotência nasceu em seu interior, porque sabia que se entrasse no ringue seria para destruí-lo.
Pelo menos agora, neste instante, Meyck Rekrue não conseguia encontrar nenhuma razão para cancelar o sonho daquele jovem.  Nem o fato de haver renunciado ao seu próprio sonho de fama e fortuna era motivo suficientemente forte para destruir o sonho dos outros.
O boxe que praticava era de segunda categoria, ele sabia, e dificilmente, aos quarenta e poucos anos ele chegaria às categorias principais. Nem nunca havia aspirado a isso. Ao contrário, quanto menos glamour  houvesse nesse universo ao qual deliberadamente decidiu pertencer, melhor aos seus intentos de resolver suas questões de vida.
Nesse universo ao qual pertencia, combatia por cachês humilhantes, e não fosse pela dedicação do irmão, ao carinho incondicional de seus cães e a um ou outro amigo mais dedicado, estaria na completa solidão e miséria.
Os amigos do cinema o abandonaram todos, e seu único contanto com algum tipo de suavidade era o abanar da cauda de seus cães, quando chegava em casa com o corpo moído e muito machucado.
Ainda olhando para suas botas, ele tentava se lembrar de alguns desses amigos, mas sua memória começara a apresentar falhas que o preocupavam.  Os médicos diziam que elas eram conseqüência dos combates, e que deveriam piorar com o passar do tempo.
Quando ele se decidira a se arriscar como boxeador profissional, muita gente achou que se tratava de um gesto de autodestruição. Mas era algo de que ele necessitava, para sua paz de espírito. E para se testar como homem.  Na verdade ele havia entrado no ringue para viver até as últimas conseqüências. Agora, entretanto, com o ruído da platéia a lhe perturbar o espírito, com a consciência a lhe cobrar um motivo para a destruição do sonho de seu jovem desafiante, ele começou a ter consciência de quem realmente era, e, para sua surpresa, isso já não o incomodava.  O que o incomodava agora, era a falta de foco, de concentração e de sentido de controle sobre o próprio destino.  
Enquanto aguardava o chamado do locutor, Meyck Rekrue percebeu aos poucos que uma nova realidade aflorava de suas recentes preocupações. Era uma sensação estranha, como uma calmaria que silenciosamente se insinuava em seu espírito, acalmando-o de seus terrores.  
Ele olhou novamente para o espelho e sentiu-se como nunca se sentira em sua vida. “Surpresa” talvez fosse a sensação correta, porque as mudanças nunca tinham vindo espontaneamente para ele. Elas resultavam sempre de trabalho duro. Agora, entretanto, enquanto observava a si próprio, aos poucos deixava de sentir orgulho pela “valentia” de ter se arruinado de maneira tão estrondosa, e subitamente concluiu que se pudesse voltar atrás, não trilharia o mesmo caminho. A impressão que ele tinha agora é que continuava a carregar a bagagem torturante que sempre carregara, apenas tinha neste momento a sensação de ter aprendido como levá-la sem se machucar.
Mais do que ninguém, ele sabia que seus demônios vinham de sua infância; e desde que era menino, ele sabia que teria que vencê-los todos os dias.
Quantos homens ele destruíra nos ringues? Jamais saberia, e até este instante isso não o tinha preocupado, mas agora ele sentia essa estranha compulsão de prestar a si próprio contas pela responsabilidade de saber que tudo o que fizera consigo mesmo sempre estaria presente em sua vida, e que teria que assumir as conseqüências pelos seus atos.
Subitamente Meyck Rekrue compreendeu que seu afastamento do cinema não foi devido ao seu “pavio curto” – como costumava nomear seu descontrole emocional – mas sim à sua falta de instrução e maturidade para entender o que ser um profissional implica. 2
E agora, pensou Rekrue, o que fazer com essa falta de vontade de destruir meu adversário? A quem vou enfrentar, se ele já não representa mais meus demônios? A esse jovem cujo olhar brilha de medo? Não, concluiu, isso ele não faria! Seu adversário agora tinha um rosto, e mesmo em seu mais agudo negrume, sua natureza de artista o impedia de destruir um ser humano.
“Então por que você está se destruindo?”  
Perguntas, perguntas, muitas perguntas que o estavam desestabilizando e tirando sua atenção da luta. Os ruídos da platéia e a voz do locutor ecoando no sistema de som do ginásio eram não mais que sons distantes, parecendo vir de alguma profunda caverna de sua alma.
Olhando ao redor, ele viu os armários de aço abertos, e sorriu ao perceber que não havia mais esqueletos neles.
Ele precisava entrar no ringue, mas não conseguia mais encontrar uma razão para isso. E se não entrasse sua reputação como lutador estaria acabada. Então o que faria para viver? Os miseráveis cachês que recebia ainda eram sua única fonte de sobrevivência.    
O cinema voltou à sua mente. O que ele sempre imaginou é que sua carreira de ator estava morta. Mas, se seus demônios o trouxeram até aqui, por que não dar uma oportunidade aos anjos, pensou?  
Ele sorriu. Na verdade de tudo na vida, só não aprendera duas coisas: A Desistir e a conceder.  Sobre a primeira não havia esperança. Ele morreria teimoso. Sobre a segunda, havia algo a ser feito.  
Ele descalçou as luvas, e agachando-se, apanhou o bilhete que havia jogado ao chão e desamassando-o, rasgou um pedaço em branco do papel, e com uma caneta que estava jogada sobre uma estante, escreveu algo. Depois guardou o bilhete cuidadosamente, e dirigindo-se à porta dos fundos, com a toalha ainda suada sobre os ombros, seguiu em direção aos vestiários.
O promotor do combate, furioso pela demora, foi pessoalmente buscá-lo, mas ao chegar encontrou a sala de aquecimento vazia e um pequeno pedaço de papel pregado na fresta da junção dos espelhos, onde leu:
“O rapaz é o vencedor. Um futuro brilhante nos espera!”


FIM

1-Fato acontecido com a atriz Kim Bassinger, ao se recusar a protagonizar o filme "Encaixotando Helena".  

2-Alguns trechos do diálogo interno do lutador foram adaptados da entrevista que Mickey Rouke concedeu à revista Veja em Fevereiro de 2009.

JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 16/02/2009
Alterado em 16/02/2009


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